09 maio, 2010

Como dizia Natália Correia - "A poesia é para comer!"



6. O escultor Silvestre Raposo à conversa com o poeta José Ribeiro Marto








5. À esquerda, Rui Martins e António Castanheira ,os responsáveis pela Escritaria.
Gabriela Rocha Martins segue com o olhar Carlos Rocha um dos
responsáveis pela imagem e logística da Bienal




4. Jorge Ponciano ,de costas ,coordenador ,
e a equipa que assegurou os serviços de restauração




3. A directora da Escola Profissional ( Anabela Lourenço ), à esquerda,
 conversando com Gabriela Rocha Martins e Maria do Sameiro Barroso




2. Maria José Mackaaij, responsável pela Biblioteca Municipal de Silves, conversa com
os Alunos da Escola Profissional de Agricultura do Algarve ( São Bartolomeu de Messines )
que deram um óptimo apoio ao serviço de restauração




Foi, no ambiente acolhedor do Bar da Biblioteca Municipal
que ,este ano ,se serviram os almoços e jantares da IV Bienal de Poesia


Espectáculo - Poesia e Dança do Crescente



obrigada Estela Guedes pelo vídeo

Dia 23 - à noite - "Poesia e Dança do Crescente" - junto à Cisterna Árabe do Museu de Arqueologia



9. A poeta Maria do Sameiro Barroso





8. Uma performence levada a cabo pelos poetas Bruno Santos
 ,Cristina Néry, Porfírio Al Brandão e Rita Grácio.





7. A poeta Graça Magalhães




6. O poeta José Ribeiro Marto




5. o poeta Pedro Afonso




4. o poeta Domingos Lobo dizendo um poema de Manuel da Fonseca




3. o poeta Jorge Velhote




2. Os Poetas Contemporâneos - Estela Guedes lendo um poema seu
,sob o olhar de Jorge Velhote








1. uma viagem desde a Poesia e Dança do Crescente aos Poetas Contemporâneos 
na voz de Marta Vargas e do Projecto Dansul


O Bosque do Amor



O BOSQUE DO AMOR




Somos um bosque. E um bosque dentro dos bosques. Bosque de folhas caducas e perenes, do castanho da terra ou do alto verde, das árvores erguidas mas também das árvores queimadas ou cortadas, derrubadas. Árvores que fazem a união entre a terra e o céu. Árvores debaixo das quais nos abrigamos ou recebemos a iluminação, ou árvores através das quais recebemos o relâmpago da morte. Árvores da crucificação.

Escreveu BERNARDO DE CLARAVAL, o grande impulsionador da Ordem dos Templários:

“ Acredita em mim, aprenderás mais lições nos bosques do que em livros. As árvores e as pedras ensinar-te-ão aquilo que não poderás aprender dos mestres.”

E revelava Lamartine, em “Imortalidade”: “Deus escondido…a natureza é o teu templo.”

Fazer um filho, plantar uma árvore, escrever um livro, é o destino a que cada homem, cada mulher aspira. E aqui estamos perante um livro, um filho, uma árvore do bosque de Maria.

Neste bosque tudo é simbólico, porque simultaneamente imaginário e real. O símbolo é um esforço do homem para conhecer, fixar e, em última análise, determinar o mundo.

Não são símbolos os instrumentos e as palavras que os magos usam para contactarem com os espíritos?

E a verdadeira poesia, como a que escreve Maria Azenha, não é mais do que uma aspiração à magia.

Por outro lado, conhecimento, fixação e domínio são os fins das ordens iniciáticas e, por isso, e porque aspiram ao conhecimento de que só os iluminados e os magos são portadores, as ordens iniciáticas são também ordens simbólicas e filosóficas. Através dos símbolos, os obreiros das ordens iniciáticas evocam e invocam o mundo. E Maria é uma obreira que evoca e invoca o mundo através do simbolismo do bosque das palavras, através do poema.

“ de amor ardem os bosques” é o título desta obra poética de Maria. Com letras todas minúsculas, em sinal de humildade da obreira.

A palavra amor é a chave da obra. Porque o amor é a chave que nos abre o mundo, a palavra secreta que nos permite penetrar no bosque que se encontra dentro de nós mesmos e no bosque do mundo.

Como escreveu Dante na sua COMÉDIA, e já tinha escrito Boécio em A CONSOLAÇÃO DA FILOSOFIA, só o amor une o universo.

O amor está intensamente ligado ao fogo, símbolo da destruição e também da criação. O fogo é o símbolo da presença de Deus junto do homem. Foi através da sarça ardente que o Deus dos judeus se manifestou a Moisés. E Deus é o Amor, que como diziam Boécio e Dante, une o sol e as estrelas.

O fogo é ainda o símbolo da sabedoria, da iluminação. Foi através de línguas de fogo que a luz de Deus entrou nos doze apóstolos. O alquimista cria a imortalidade no fogo do seu fornilho.

O fogo que ilumina “ de amor ardem os bosques” é o fogo alquímico do amor que transforma o interior do homem, o seu bosque.

Esta obra de Maria inicia-se com uma citação do nominalista Guilherme de Occam: “ O homem só muito lentamente aprende o seu nome.”

A citação é também simbólica. Guilherme de Occam, o grande, talvez o maior nominalista, foi o filósofo que libertou as palavras das coisas a que Platão e o cristianismo platónico as tinham aprisionado. O monge franciscano de Occam teve a humildade e a pobreza como princípios de vida e a liberdade como ideal sagrado e único caminho que leva o homem a conhecer-se a si mesmo como estava escrito no frontão de Delfos, a conhecer o seu próprio nome. A viagem através dos bosques é penosa, assustadora. Mas só através dela poderemos conhecer o nosso próprio nome.

Maria divide a sua obra em cinco partes, que denomina folhas, porque as folhas são as partes do bosque que simultaneamente são um ente em si, símbolo do reino vegetal, mas também a parte de onde o ramo, a árvore e o bosque retiram o seu sentido e prosperidade, pois que é das folhas que à árvore vem a vida, através do ar, esse elemento essencial ao fogo.

São cinco essas folhas, porque cinco é o número daqueles que iluminam o templo. Cinco é também o número do amor, o número nupcial, como ensinava Pitágoras, o número da união do princípio masculino, celeste, o três, com o princípio feminino, terrestre, o dois. O símbolo do homem, como o conhecemos do desenho de Mestre Leonardo e do ensinamento de Hildegarda de Bingen. Cinco é também o conjunto dos sentidos que nos ligam ao mundo e através dos quais o mundo se nos revela.

A primeira folha, intitula-a Maria “ da inteligência dos bosques”

E, no primeiro poema, diz-nos que estamos aqui como num templo iniciático, onde o que se passa “ À luz da lâmpada do anfitrião da casa” não pode ser revelado, e é objecto de um voto de silêncio. È também em silêncio, como em todos os templos, que devemos entrar com o coração cheio do vinho do amor. Em silêncio se contacta com a inteligência dos bosques, com tudo o que nos bosques há que, como dizia Bernardo de Claraval, nos pode ensinar muito: as aves, o vento, a água que nos hão-de ensinar a “ciência da respiração”..

Maria trabalha “ na lavoura do alfabeto”. A “centenária árvore” ensina-lhe a subtil “fonética dos insectos.”

A acácia é a árvore que está no coração deste bosque, a acácia árvore de folha perene de que era feita a arca da aliança que se encontrava no Santo dos Santos, do Templo. A acácia árvore que no dealbar do solstício de Inverno nos anuncia a luz de inúmeros sóis, a acácia com que se cobriu o corpo morto de Mestre Hiram que a ciência dos bosques fará renascer nos nove mestres seus sucessores.

Por isso a segunda folha se intitula “ da ciência dos bosques”, porque bosque e amor são inteligência e ciência, lugar onde aprendemos, o que aprendemos, e como aprendemos no ritual sagrado.

Mas o bosque é também o lugar de sombras, porque tudo no homem é simultaneamente luz e sombra, branco e negro, e a variedade infinita de cores entre o branco e o negro. Por isso a terceira folha se haveria de intitular “das sombras dos bosques”.

Esse é o espaço da solidão, da tristeza, da noite.

“ Vem pela noite um bandido

com uma mão cheia de cinzas

para nos cegar”

escreve Maria no terceiro poema dessa folha. E interroga-se Maria pensando nesses mendigos que aguardam apenas “a tigela de sopa” esmagados pelo cinismo:

“« quem é que reponde por isto?»”

Ao lado do negro está o branco, ao lado das trevas está a luz, ao lado das sombras estão as clareiras, lá onde o céu se abre límpido para homem, lá onde o homem pode receber a luz em contacto com o céu. Lá se encontram “ os roseirais do tempo”. Lá se poderá dialogar simultaneamente com o azul do céu e o verde das árvores.

“ E a árvore disse:«criei em ti o verde.

Porque me amaste

Teci em ti a ilusão da sede.

Depois,

Para que me conhecesses

Entreguei-te

Às luminárias do solo.»

É o diálogo com a divindade, como o praticou Alain Bosquet, simultaneamente tormentoso e sereno, porque, como bem sabemos, o próprio Deus deseja a sua finitude e intimidade, Ele próprio deseja as coisas simples do homem: o calor do sol, a chávena de chá, o caderno, os lírios. E assim termina essa quarta folha, “das clareiras dos bosques”:

Escreve:

No alto da manhã

prepara-se o sol

para uma chávena de chá quente.

caderno e lírios surgem mais tarde

............................................................entra,

.........................................fecha a porta.

.....................agora precisamos de paz.

Finalmente, “do coração dos bosques” é a última folha.

Na sua viagem através dos bosques, Maria perdeu o medo, porque toda a viagem é uma luta contra o medo, um modo de ir ao encontro da sabedoria, da força e da beleza.

Os bosques existem porque no seu centro está o coração. Chegados a Dezembro, ao frio, o que dos bosques resta é o coração.

Meu coração fugiu das coisas vãs

venceu as pedras o ar o espaço

para cantar disse manhã

...............................criança

...............................de

...............................água

...............................ave branca

Maria chegou à essência das coisas, à irmã criança, à irmã ave, os seres que dão sentido ao mundo. Dá-se nela o renascer das coisas. Depois de Dezembro surge a Primavera, o “ sopro livre”, “o domínio das cores.”

Perto do fim, ela, a criança, olha para trás, para o Outono, para a ceia de Natal, e descobre:

“ O amor é o que nos resta de mais sagrado”

Da memória da viagem, o amor é, sim, Maria, o que nos resta de mais sagrado no coração dos bosques.

Henrique Dória

06 maio, 2010

Dia 23 - ao fim da tarde - "De Amor Ardem os Bosques"










6. O ar atento e feliz da autora ,Maria Azenha





5. Inês Ramos ,nos poemas ,Paulo Pires ,na música







4. Enquanto ,à esquerda, Adão Contreiras filma








3. Sob o ar atento de Inês Ramos
,Maria Azenha e Henrique Dória, Paulo Pires improvisa




2. A atenção da assistência





1. Henrique Dória apresenta
o último livro de Maria Azenha - "De Amor Ardem os Bosques"


Dia 23 - tarde - Há Festa nas Palavras!



9. A Heloísa Baptista cortando as primeiras palavras




8. António Simões e Gabriela Rocha Martins dançando com as palavras




7. Paulo Pires, Rui Mendes e Maria Lua cantando outras palavras




6. Uma forma informal de ouvir ,com atenção ,as palavras




5. Paulo Pires dando música às palavras




4. Um leitor da Biblioteca lendo as suas palavras




3. Uma pequena leitora da Biblioteca brincando com as palavras





2. Maria José Mackaaij ,responsável pela Biblioteca ,dando voz às palavras




1. Bolo Comemorativo
........os dois anos da Biblioteca Municipal


Fernando Assis Pacheco revisitado por Luís Serrano




A. Introdução e Nota Biográfica
Fernando Assis Pacheco nasceu em Coimbra em 1 de Fevereiro de 1937 e veio a falecer em Lisboa, na Livraria Buchholz ao início da manhã do dia 30 de Novembro de 1995.
Licenciou-se em Filologia Germânica pela U.C. Foi co-fundador do CITAC tendo pertencido ao TEUC, ao tempo dirigido por Paulo Quintela.
Esteve na guerra, em Angola, (entre 1963 e 1965) e disso encontramos eco em não poucos dos seus poemas.


Após o regresso de Angola foi para Lisboa onde até ao fim dos seus dias se dedicou ao jornalismo, colaborando regularmente com O Jornal e JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias.
O Fernando era um ano e tal mais velho do que eu. Conhecemo-nos, ainda adolescentes, nas militâncias católicas à procura de um enquadramento para as nossas vidas. A nossa procura manteve-se até ao fim. Era de uma moral que tornasse as relações entre os homens mais justas que andávamos à procura. E para ter essa moral não precisávamos da religião como ambos concluímos mais ou menos aquando da entrada na Universidade.
As nossas preocupações passaram a ter um carácter mais cívico do que outra coisa e traduzia-se, entre outras preocupações, no desejo veemente que o antigo regime ruísse.
Caído Salazar (por doença) e Marcelo Caetano e o seu governo por acção do 25 de Abril de 1974, a esperança de um mundo melhor e mais humano foi para ambos motivo de grande contentamento mas não foi necessário passar muito tempo para que ambos nos déssemos conta de que afinal a política e os políticos eram outra coisa: uma operação de carreirismo que podia levar uns tantos ao poder mesmo atropelando os mais lídimos interesses da população.
Mas isso foi depois; em 1963 ainda tu acreditavas (e eu também) que o tal mundo melhor estava ali ao dobrar da esquina à nossa espera. Que ingenuidade a nossa! Como éramos ainda meninos, Fernando, e isso de ser menino nem era assim tão mau. Mas por essa altura já nós tínhamos o vício de ler livros que é uma forma disfarçada de roer as unhas da mente. E aprendemos alguma coisa mas não o suficiente. Foi por isso, por essa tua teimosia de acreditar, que só muito tarde, no ano da tua morte (1995) escreveste aqueles versos doridos:


[…] qualquer um do teu tempo
está bastante melhor do que tu
deputado administrador de empresa
ministro da maioria
puta (alguns chegaram a isso)

só tu meu inocente brincas com a neta
açulas o cão pedindo
à família que te ature
o tipo um dia destes morde-te
que é para aprenderes

mas aqui entre amigos
vou-te dizer também
uma coisa importante não cedas
à tentação de mudar
fica nesta pele que é tua

como é que tu escrevias
merdalhem-se uns aos outros
[…]

(Respiração Assistida, 2003)

B. Cuidar dos Vivos
Logo pelo título pedido de empréstimo ao Marquês de Pombal quando na sequência do terramoto de 1755, ele disse a célebre frase: cuidar dos vivos, enterrar os mortos, se vê que o poeta olha em frente e acredita que no curto prazo o mundo será melhor: as ditaduras ibéricas hão-de cair, o regime de Fulgêncio Batista já caiu e os americanos hão-de sofrer uma derrota vergonhosa no Vietnam. E esta esperança, esta “certeza” vem confirmada noutros poemas como seja o da p.20 (Os animais de fogo) em que o poeta diz: […] Eu estou à beira de nascer outra vez. / Eu tenho de legar ao meu povo / um sentido mais positivo da existência. […] …E eis por que eu não quero deixar / que a tristeza invada os meus versos. Há aqui um programa político subjacente que o leva a uma atitude racionalista de crença num mundo que há-de ser guiado pela razão. A p. 26 afirma: Mas o Maio volta. É bom saber / que num dia qualquer de um destes anos / vamos todos rir e dar as mãos, / troçar do domador se ainda houver. E houve até 1968 e depois houve outro até 1974 e mais tarde apareceram outros ainda. A sua preocupação mantinha-se. Leia-se a 1ª estrofe do poema da p.32: Eu hei-de amar serenamente / com tanto amigo na prisão, deixar intacta a minha voz / para os acidentes da ternura? Tinha clara consciência de como era difícil viver nestas contradições mas repetia para que não esqueça - Um homem tem que viver / com um pé na primavera. (p.35) e logo a seguir (p.37): A minha geração é de esperança e já na III parte (p.41) dirá Aconselho-vos o amor: / o equilíbrio dos contrários. […] ACONSELHO-VOS A LUTA.
Toda esta preocupação e este triunfalismo eram típicos dos poetas da década de 60, o que o levou à aproximação aos neo-realistas.
Em boa verdade, como já foi dito por Mário Sacramento (Há uma Estética Neo-Realista), o neo-realismo enquanto corrente estética, está muito mais representado na ficção do que na poesia. A maior parte da poesia dita neo-realista é muito mais lírica do que épica e “desculpa-se” com palavras de Éluard:
“Não há assuntos privilegiados. Não existem assuntos proibidos. Acima de tudo, não há poesia de ordem. Tenho às vezes vontade de escrever poemas sobre os operários, os mineiros, os trabalhadores e acabo por fazer um poema sobre as folhas como também, às vezes, quero cantar o amor e acabo cantando a liberdade.
Quando escrevi o poema Liberté durante a guerra, pensava na mulher amada e repetia o seu nome. Percebi depois que o meu amor por ela coincidia com o amor pela liberdade e que o poema era um misto de cólera e de amor.
Não existe poema social no sentido comum da palavra. Existe apenas a poesia.”
Eu creio que este pequeno texto de Éluard que serviu de epígrafe a Canções para a Primavera (1960) de José Carlos de Vasconcelos poderia servir de epígrafe a outros livros de poesia aparecidos na década de 60, nomeadamente este Cuidar dos Vivos embora com a ressalva de que nesta obra aparecem já poemas que reflectem a experiência da guerra colonial, e com ela, forçoso é separar as águas: à esperança num mundo mais justo e mais humano segue-se a descrença, esse veneno […] que me envenena.
Fernando Assis Pacheco é um grande poeta lírico, um homem que carrega o amor (pela mulher amada, pelos amigos, pela humanidade) e também a morte desde este seu primeiro livro. A título de exemplo, citemos das p.62/63 (Com a tua letra) alguns versos: Fala-se de amor para falar de muitas / coisas que entretanto nos sucedem. / Para falar do tempo, para falar do mundo / usamos o vocabulário preciso / que nos dá o amor. […] E para falar da morte; da enorme / definitiva irremediável morte, / do carro tombado na valeta / […] Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo / da escuridão do mundo. / Porque tudo se escreve com a tua letra. /
Num outro poema F. Assis Pacheco escreve:
Mas é preciso que um dia a gente acorde /
para coisas que não sejam fúnebres.
Para grandes e miúdos entusiasmos,
para lutar (se houver de ser) nos cornos do boi.
É preciso que um dia a gente se acenda.
Curiosamente, escrevi ao lado desta estrofe este comentário a lápis, porventura num dia de má disposição: acreditaria nisso o Fernando?
Mas ao terminar de reler (quantas vezes o terei lido?) este livro, o que mais me perturba é um epitáfio escrito aos 23 anos (1960): Tu que te abeiras deste leito último: / sê grande no amor, grande na fraternidade. / E nunca me lamentes.
Segue-se um apêndice chamado Nambuangongo com dois poemas de 63, enviados do teatro da guerra quando o livro já estava a ser composto; o primeiro (soneto escrito no dia em que morreu o papa João XXIII, de boa memória) começa com este verso: Há um veneno em mim que me envenena, e que termina com este outro e há meu coração posto de rastos. O segundo chama-se
O Poeta Cercado:
O poeta está cercado. Espera-o / um avô muito velho. […] O poeta escreve os seus papéis / furtivamente. / Come com gestos lentos e imprecisos. / Bebe em silêncio. Olha as matas em volta. / Dorme enrolado no seu cobertor / como o romeiro do Senhor da Serra, / mas pior, e menos, porque não há deus. […] Mal ele sabe que o avô Santiago morrerá ainda nesse ano de 63 (Fernando Assis Pacheco recebe a notícia no mato.)
Chegamos ao fim de Cuidar dos Vivos com a sensação de que houve uma transformação profunda em Fernando Assis Pacheco: é um homem que está sozinho ou que começa a estar sozinho, descrente de tudo, desencantado (talvez por efeito da guerra colonial que o traumatizou fortemente como julgo saber) e ainda só estamos em 63. Restar-lhe-ão 32 anos de vida e as grandes alegrias que vai ter virão da família: da Rosarinho, companheira de sempre e do nascimento das 5 filhas e do João, o único macho da família. E terá também um pai e uma mãe que o adoram.

C. Catalabanza Quilolo e Volta
Este é, na minha opinião, um dos livros mais dramáticos que se escreveram tendo como pano de fundo a guerra colonial em Angola. Foi editado pela Centelha, Coimbra, em 1976. Lembro-me de o ter adquirido numa vaga feira do livro em Coimbra, curiosamente no velho Chiado que depois tinha sido propriedade do avô galego Santiago A. A. Mendes e que posteriormente voltaria ser o Chiado, espaço hoje utilizado como galeria de pintura. O Fernando estava lá para uma também vaga sessão de autógrafos. Fui dar-lhe o abraço de sempre e releio agora comovidamente a dedicatória, simples e despretensiosa que quis escrever na 2ª página “Ao fim de tantos anos apareço-te com isto. Já sei que entendes, mas há calão à brava para mastigar: foi o que saiu. O velho abraço do Assis 3.6.78”
Esta obra é, nas palavras do autor, basicamente a versão original de um título que publiquei em Maio de 1972, Câu Kiên: um Resumo. Este título era obviamente um disfarce, um fingimento para iludir a censura. A este original o poeta acrescentou mais alguns poemas escritos na mesma época mas agora já sem a possibilidade de os atrasados mentais da censura se poderem intrometer.
Logo na 1ª parte (Lisboa) e no 1º poema intitulado “E havia Outono?”. O poeta diz: Havia o que não esperas: árvores, / altas árvores de coração amargo, / e o vento rodopia e leva / as folhas cegas / por sobre a cabeça do homem. / Havia um coto em sangue.
Como se vê, a seguir a uma introdução ao Outono, um Outono como há outros com a sua queda de folhas, surge-nos um Inverno que é um soco no estômago: Havia um coto em sangue.
F. Assis Pacheco vai utilizar por diversas vezes esta “técnica” de ponto / contraponto. Leia-se este poema na sua continuação: Morreremos dez vezes / para nascer dez vezes, / não morreremos nunca, / diziam // […] Havia o que não esperas: risos, / lágrimas como risos, / lágrimas / como folhas cegas / explodindo ao de leve; / e a morte –
Retiro da 2ª parte (Dembos) o poema Morro do Aragão que transcreverei na íntegra:
Encosto a cabeça a um pneu / acendo
o cigarro / passarão anos sobre esta
lembrança entontecida.
Amanhã dormirei? /
foi agora que a morte / o
sono dentro da cabeça /
este pneu sobre a lama.

Luzes de Nambuangongo
ao longe, amanhã estarei
deitado no meu catre.

As cartas enlouquecem / casa, pai!
Foi agora que as luzes. O sono,
O pneu / o cigarro sujo.

Pacheco, O. K.? A mão pesada
dentro do bolso / o sono
sobre o pneu.
Noite, noite entontecida.

Passarão anos, nascerão filhos
muito antes que eu esqueça.

O. K., O. K. / rio de trevas.
Chamo a atenção para o carácter compulsivo deste poema onde certas palavras se repetem: pneu, sono, lama, o peso dos vocábulos “casa” e “pai” na economia do poema, a palavra morte uma só vez enunciada mas implícita na palavra sono (eufemismo). Há mesmo uma frase que fica a meio: Foi agora que as luzes. Tudo isto dá uma ideia de desnorte, de desalento, de grande confusão, de um clima depressivo que lança o poeta numa indisfarçável vontade de não estar ali. Mais tarde, no livro póstumo voltará ao tema, sugerindo que outros poderiam lá estar que não ele e os companheiros compelidos a fazer uma guerra para a qual não foram nem achados nem ouvidos.
Nalguns poemas, Fernando Assis Pacheco emprega o seu conhecido sentido de humor para destruir a guerra pelo ridículo ou para reagir ao medo. Assim, no poema “Por estes Matos”, um daqueles poemas que é costume classificar como poesia em prosa (como se isso fosse importante!), nas últimas linhas escreve: Se tivesse aqui o meu pai dizia-lhe: “Isto não vale o silêncio que usais, senhor; protestai comigo diante das palmeiras; sentai-vos no banco de pau, é por estes matos que tudo foge.” A guerra perdeu a medida.
O único sítio de paz foi cavado anteontem. Entra-se por um lado, caga-se e sai-se pelo outro.
Poemas há que eu não conseguiria ler alto, tal é a dor que deles transpira: “As Balas”, por exemplo (p.39/40) e “Relato”, um sonho, um pesadelo onde entra um pai, um tio, um jeep e mais não digo (p.51 a 53)
Na 3ª parte (Luanda) alguns títulos de poemas são significativos: “Isso, a Walter”, “Ode ao Librium Dez” “A Filha” (Ajudai-me a cantar a filha. / Preciso de cantar / esta alegria simples que se abate / sobre uns ombros mesquinhos: / […] Preciso de cantar a filha. […] Luanda é a noite / despojada de estrelas. /Não merece esta filha.).
Esta obra termina com uma 4ª parte com o título igual ao da 1ª (Lisboa). Do Genérico (p.73) retiro apenas os primeiros 6 versos (e sem comentários): E tu, meu pai? Adivinho esses vidros / das lágrimas quebrando / um a um na boca triste mas / por dentro, para que digamos / mais tarde, sem invenção escusada: / o pai não chorou.

D. Memórias do Contencioso
Trata-se de uma edição Heptágono, Lisboa, 1976, graficamente muito modesta como se tivesse sido escrita na velha máquina de escrever (tecnologia que o Fernando nunca abandonou). Seria uma homenagem a alguma velha Remington? Era homem para isso!
São poemas de amor. Se alguma dúvida subsistisse bastaria ler a epígrafe retirada do 1º verso do soneto LXXXII do Canzoniere de Petrarca: Io non fu’ d’amar voi lassato unquancho que na minha modesta tradução dá qualquer coisa como isto: Nunca fiquei cansado de vos amar.
Este pequeno opúsculo de apenas 8 páginas encerra poemas escritos entre 1963 e 1976 e dele não resisto a ler-lhes os poemas 8 e 9.
Poema 8:
mas segundo o discurso “em voga”
maldita seja a sorte que na morte
da forte vida sobre as patas
me tenha em locus solus

e derramem-se-me os óleos
do coração e a
vista se me feche e cuspam
de longe neste gafo

se for para calar-me e não disser
o teu nome no fim, sempre o teu nome

Poema 9

não pude amar mais nada
não pude mais ninguém
e mesmo que te minta
é o contrário disso

e mesmo que te minta
é a verdade seca
posta ali às avessas;
não pude amar mais claro
Chamo apenas a atenção para a rima interna e aliterações (sobretudo no 1º). Não há aqui lugar para efeitos especiais, variações, rodriguinhos, coisas assim. É uma poesia enxuta ainda mesmo quando confessa o grande amor da sua vida.

E. Siquer Este Refúgio
Obra editada também por Heptágono (Lisboa, 1976, 8 páginas). Aborda alguns lugares com os quais o poeta teve uma relação privilegiada: “Olivais, Coimbra”, “Inverness, Escócia”, Bouzas de Fondo, Orense”, “Quarto Bairro, Paris”, “Chiado e Lumiar, Lisboa”, “Peniche”.
A epígrafe que abre este caderno é da Canção X de Camões: Siquer este refúgio só terei: / falar e errar, sem culpa, livremente.
O poema Bouzas de Fondo, Orense: a Muiñeira é um curioso poema onde se misturam frases entrecortadas e retiradas de outros contextos com palavras portuguesas e galegas numa amálgama que diz bem do sentido cultural e familiar que o poeta tinha com a Galiza.
Um outro poema que revela um poeta experimentalista é Chiado, Lisboa: Escritor à Barra. São frases cheias de ironia imaginadas ao balcão de um bar do Chiado, não têm princípio nem fim mas o gozo do poeta vê-se em expressões como estas:
“…que tu paraste: parei?: a dita revolução na via uriginária portuguesa: o uriginol!”
“…que mau grado os apetites por uma literatura ao serviço do puâbo”
“…que somos um funeral”
Creio que estas três frases chegam para mostrar uma ironia que vira sarcasmo e denota um homem triste num país triste a beber um copo ao balcão ouvindo as tristuras dos outros compinchas de ocasião.

F. Variações em SousaEditada em 2004 por Angelus Novus e Edições Cotovia, esta obra apresenta-se dividida em três partes e é de algum modo uma revisitação de Coimbra pela mão do poeta António de Sousa como sugere Gustavo Rubim, autor do posfácio. Os poemas foram escritos, certamente antes de 1984, pois existe uma 1ª edição de Hiena Editora (1987) mas já tinha havido uma edição anterior (1984) não comercial.
A 2ª parte traz à nossa leitura quatro poemas com o mesmo título Chula das Fogueiras. São referências a vagas namoradas ou nem isso, que o autor despachou ou por elas foi despachado (tu querias era casar na Sé Nova / […] fiz-te pois um manguito do tamanho dum choupo […], etc.
A minha atracção, porque de atracção se trata, vai para “Canção do Ano 86” (é um encontro consigo próprio, Coimbra ao fundo e esse sentimento que o não abandonará mais, de perdedor) a que não é estranho um indisfarçável pudor:
Agora quando volto
quando é raro voltar e sempre por um dia
estou à minha espera na ponte de Santa Clara
com um ramo de rosas que levanto
à aproximação do carro
saudando-te caro Fernando Assis Pacheco
filho pródigo destes quintais floridos

quando acontece que volto
que assim volto por pouquíssimo tempo dou comigo
na berma da EN 1 a olhar à esquerda o Vale do Inferno
hoje estragado por um sacana qualquer dum engenheiro
dizendo adeus adeus Fernando Assis Pacheco
menino antigamente sem cuidado

se é que volto intimado pela agenda
do jornal em Condeixa já inquieto espreito
a ver se vens dos lados de Pombal
oitavo duma fila atrás dum camião
coçando a barba gesto bem teu
com que disfarças o nervoso e a pressa

volto sem querer quando decerto
mais não queria voltar
encasacado anónimo de olho circunvago
Leiria num relance prego no fundo
apetecia parar ao pé de ti Fernando Assis Pacheco

cálido aceno do que morreu
conversamos os dois sobre esse século esses
cafés com quatro mesas e matraquilhos na cave a cheirar a bolor
essas aulas a que faltávamos no último período para empatar
cinco a cinco com os varões todos torcidos

consta que desde então
não fazes mais do que perder
Há neste poema um jogo de espelhos, um flash-back (não lhe chamo analepse porque há neste poema muito de linguagem cinematográfica: plano geral sobre Coimbra vista do Vale do Inferno, vários grandes planos sobre o Fernando aos 20 e aos 50 anos, um travelling a grande velocidade nas imediações de Leiria, etc), um flash-back dizia numa tentativa desesperada de se encontrar a si próprio e perceber a sua pessoa e o mundo em que vive. Mas o Fernando era já um perdedor, disfarçando com a laracha, com esse espantoso sentido de humor que era o seu e que é apanágio das pessoas inteligentes mas tristes, era um homem com o país colado à pele, aquilo que Alexandre O’Neill traduziu pelos conhecidos versos Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo, / […] meu remorso, / meu remorso de todos nós...
Do Soneto aos filhos (p.42), curiosamente um “soneto” com 15 versos, retiro o último verso, o 15º: mas livrai-vos do luxo e da soberba. Que melhor testamento moral se podia deixar aos herdeiros? Ele dá bem a medida das preocupações de ordem moral que foram sempre as suas ao longo da sua vida, primeiro com Deus e depois sem Deus. Que diferença faz?
Um outro poema deste Variações em Sousa e que é uma reflexão sobre a morte, que digo eu? Uma premonição da morte em forma de fábula:

Ora uma vez um mocho diz o meu filho
que sabe todas as histórias do mundo

uma vez um mocho
o macaquinho pergunta-lhe
o que é quando se morre?
pois nada diz o mocho
morre-se praí

o macaquinho insiste
mocho e quando tu morreres?
morro nada diz o mocho
hás-de morrer tu primeiro

mas veio uma zorra e comeu o mocho
que foi para um buraco muito fundo
ninguém cantava nesse buraco
só os morcegos e mesmo esses
só se a gente lhes batesse
com uma vassoura da cozinha

o macaquinho come bananas
escapa-se ao jacaré do Amazonas
que lhe quer dar uma dentada
salta nas árvores
uma daquelas era onde estava o mocho

coitado do mocho
não viu a zorra ao pé da carvalheira
morre-se praí
morre-se num instantemente de nada

morre-se a morte mocha
sem a gente dizer ai

G. Respiração Assistida
Trata-se de obra póstuma, editada em 2003 pela Assírio & Alvim, com posfácio de Manuel Gusmão tendo a organização da edição sido da responsabilidade de Abel Barros Baptista. Reúne 35 poemas escritos entre 1991 e 1995, 26 dos quais nos dois últimos anos de vida; alguns deles foram revistos poucos dias antes da sua morte, nomeadamente o que dá o título à obra, datado de 27.11.95.
É um dos livros mais tristes e mais dramáticos que alguma vez li. Que não se iludam os que lerem os sonetos 1, 2, 7, 8 e 9. Estes cinco sonetos (eróticos ou como pretende Manuel Gusmão, licenciosos e a meu ver bem) são ainda a expressão de uma ligação à vida, de um forte amor à vida, pela mão de Diónisos. É como se por essa via, ele nos quisesse dizer que, apesar de tudo, a vida vale a pena ser vivida.
Quanto aos restantes, alguns referem os seus graves problemas de saúde, alguns são ainda reminiscências da guerra, poemas dedicados à memória de amigos que, entretanto, morreram (D. Manuela Alegre, Afonso Praça, Bento Soares) e outros.
Entre esses outros, um dos que mais me enternece é este:
O que vai ser avô saúda-vos
parentes meus
mudos sob a terra guardados
em roupas que sobraram nas gavetas
papeleiras inúteis
pratas deformadas

velhas fotos severas
numa delas meu pai menino
de pé no seu bibe escolar
e a cara tão séria
que jamais perdeu
mesmo quando sorria

minha mãe moça magra
o que se dizia bem posta
vinda nesse ano
de Melias em Ourense
aturdida com a festa
que as minhas filhas
foram conhecer comigo
e como ela bonitinhas

mas depois chega a morte
adeus Cazurro barqueiro
adeus sr. Santiago A. A. Mendes
-nome comercial- adeus tios Eládios
logo dois um deles meu tio-avô
com a sua lojinha em Ourense
aonde eu ia comprar pipas de girassol
o outro dizem os filhos meu muito amigo
mas com quem me desavim
por qualquer motivo estúpido
desses que ninguém explica

parentes vizinhos olhos
que já não vêem nem eu vejo
a minha rua e depois outra
para onde mudei tão infeliz
onde afinal fui feliz muitíssimo

ei-la aqui a neta um vulto ainda
na barriga da mãe
também feita do que eu sou
e se quiserdes ó memórias
o que no mundo
sobra de vós todas
Vilagarcía de Arousa, 10.IX.95
Lisboa 10.X.95

O poeta conheceu apenas a primeira neta, Margarida, nascida em Dezembro de 1994, o que significa que as datas acima referem apenas o termo do poema, certamente iniciado muito mais cedo.
Mas o livro, repito, é quase tão triste quanto o Só de António Nobre. Não tinha muitas razões para estar contente ou esperançoso. A saúde ia de mal a pior e o país afogava-se num lamaçal de que ainda não saiu e já lá vão 15 anos. Basta reler o poema da p. 36:
Este ministro é um mentiroso
que agonia quando ele discursa
e se fosse só isso: bale sem jeito
às meias horas seguidas – e não pára!

bem-aventurados os duros de ouvido
a quem o céu abrirá as portas
desliguem p. f. o microfone
ou então tirem o país da ficha
Este livro, Respiração Assistida, livro póstumo, como já se disse, dá-nos bem a medida do seu talento mas dá-nos também a medida do seu desencanto, as contínuas alusões à morte que ele sabia estava próxima. Mas a grande maioria, para além de ser um conjunto muito belo, é tremendamente melancólico.
O poema que dá o título ao livro corrigiu-o Fernando Assis Pacheco três dias antes de morrer (Eu vi a morte / de noite – névoa branca - / entre os frascos do soro / rondar a minha cama (...).
Outros são poemas de inexcedível ternura como aquele cujo tema é o seu próprio pai:
O dia em que nasci meu pai cantava / versos que inventam os pastores do monte / com palavras de lã fiada fina / cordeiro lírio neve tojo fonte // esta é uma velha história de família / para dizer como ele e eu chegámos / à raiz mais profunda do afecto / da qual nunca jamais nos separámos // nem Deus feito menino teve um pai / que o abraçasse e lhe cantasse assim / a primeira hora até ao fim // fui vê-lo ao hospital quando morria / olhos parados num sorriso leve / tojo cordeiro lírio fonte neve.

H. Conclusão
Foram muitos os escritores e não só, que quiseram dar testemunho da admiração que por ti tinham: por exemplo, Joaquim Manuel Magalhães e José Cardoso Pires (um texto belíssimo e emocionado; só não estou de acordo com ele quando diz que tu eras um homem feliz, bem o enganaste; basta ler o poema da p. 45 “Um tal Fernando Assis Pacheco” onde se pode ler […] adorava os pais mas tinha medo / quando zangados se punham aos gritos / […] chorava então desabaladamente / […] mesmo depois a noite que urinasse / no pijama era um protesto civil / encharcou assim grande parte das Beiras / não lhe perguntem se foi feliz); o poema tem data de 25.V.95. Continuo a citar os escritores que quiseram dar testemunho de ti: José Bento, Jorge Amado, Zélia Gattai, António Tabucchi, Brigitte Paulino-Neto, João Miguel Fernandes Jorge, Luís Sepúlveda, Antón Mascato, Paco Feixo, Fernando J. B. Martinho, Eugénio Lisboa, João Francisco Vilhena, Xesús González Gómez, Mário Quartin Graça, José Eduardo Rebelo e José Carlos de Vasconcelos (responsável pela coordenação dos dois números do JL dedicados ao poeta).
A este número há que acrescentar poemas dedicados à sua memória da autoria de Manuel Alegre, Rui Knopfli, Luís Filipe Castro Mendes, Manuel Alberto Valente e José Manuel Mendes.
Meu caro Fernando, há quantos anos deixámos de nos ver? A última vez que estivemos na mesma sala foi numa homenagem ao Prof. Paulo Quintela e não chegámos a conversar. Nem sequer te cheguei a ver. Foi a mulher que me veio dizer: olha, estive a conversar com um grupo de pessoas entre as quais se encontrava o Fernando Assis Pacheco que te manda um grande abraço. São partidas que a vida nos prega, Fernando: éramos amigos e tão poucas vezes nos encontrámos depois que foste para Lisboa e eu, primeiro, para o Porto e a seguir para Aveiro. E eu não arranjei tempo para te retribuir o abraço e só eu sei quanto apreciei sempre a tua poesia, quanto apreciei sempre a tua generosidade, a tua disponibilidade para os outros.
Olha Fernando, partiste vai para quinze anos e o mundo não está melhor. Pelo contrário, são os medíocres que triunfam, os oportunistas, aqueles que são capazes de vender o pai e a mãe por um lugar ao sol. Por isso, deixa-me fazer minhas, repetindo-as, aquelas tuas palavras do poema das p. 43-44: (...) qualquer um do teu tempo / está bastante melhor do que tu /deputado administrador de empresa / ministro da maioria / puta (alguns chegaram a isso) // só tu meu inocente brincas com a neta / açulas o cão pedindo / à família que te ature / o tipo um dia destes morde-te / que é para aprenderes // mas aqui entre amigos / vou-te dizer também / uma coisa importante não cedas / à tentação de mudar / fica nesta pele que é tua // como é que tu escrevias / merdalhem-se uns aos outros // o país mete dó // guarda o último tesão / para mandares / meia dúzia de canalhas à tabua.
Da tua vida fica-me uma saudade imensa e este conselho (tu que não gostavas de dar conselhos a ninguém): não cedas à tentação de mudar fica nesta pele que é tua. Obrigado, Fernando.

Luís Serrano, Aveiro, Março, 2010.

Dia 23 - à tarde - 15 anos depois...Fernando Assis Pacheco




6. Simão lendo ,pela primeira vez ,um poema do avô




5. Rosarinho Assis Pacheco ladeada por duas das suas filhas
 ( Catarina, à sua direita, e Bábá, à esquerda )







4. Inês Ramos lendo alguns poemas de Fernando Assis Pacheco






3. Luís Serrano proferindo a sua conferência sobre o amigo Fernando Assis Pacheco 
,tendo à sua direita ,Simão ,um dos netos de Assis Pacheco










1. Alguns ângulos da assistência



Dia 22 de Abril - noite - Concerto Acústico e Tertúlia







No dia 22, à noite, Vera Mantero presenteou.nos com um fabuloso concerto onde, acompanhada por Gabriel Godói, mostrou a versatilidade da sua voz, interpretando Caetano Veloso.
( obrigada Estela Guedes pelos vídeos )